quinta-feira, 8 de junho de 2017

As Partes Herméticas a partir de Paulo de Alexandria (Excerto)


  As Sete Partes Herméticas

Lua
Parte da Fortuna (Týkhê)

Diurna: Ascendente + Lua - Sol

Nocturna: Ascendente + Sol -Lua

Sol
Parte do Espírito (Daímôn)

Diurna: Ascendente + Sol - Lua

Nocturna: Ascendente + Lua - Sol

Mercúrio 
Parte da Necessidade (Anánkê)

Diurna: Ascendente + Parte da Fortuna - Mercúrio 

Nocturna: Ascendente + Mercúrio - Parte da Fortuna

Vénus
Parte de Desejo (Éros)

Diurna: Ascendente + Vénus - Parte do Espírito 

Nocturna: Ascendente + Parte do Espírito - Vénus 

Marte
Parte da Coragem (Tólma

Diurna: Ascendente + Parte da Fortuna - Marte

Nocturna: Ascendente + Marte - Parte da Fortuna 

Júpiter
Parte da Vitória (Níkê)

Diurna: Ascendente + Júpiter - Parte do Espírito 

Nocturna: Ascendente + Parte do Espírito - Júpiter 

Saturno
Parte de Retribuição (Némesis)

Diurna: Ascendente + Parte da Fortuna - Saturno 

Nocturna: Ascendente + Saturno - Parte da Fortuna

Método de Cálculo

  A fórmula de cálculo de uma Parte, A + B - C, embora simples, permite que se criem estruturas complexas de sentido entre os vários componentes do mapa astrológico. Ora o método mais simples de calcular é aquele que, tal como Paulo de Alexandria descreveu, atribui a cada zôdion 30 graus. O princípio matemático inicial tinha uma componente geométrica, o que seria natural, pois uma Parte implica sempre um carácter espacial, é o "lugar de", porém o princípio acabou por se tornar algébrico, o que não comprometeu esse carácter espacial. 

  É a partir da posição de cada um dos três elementos da fórmula que se chega ao lugar que a Parte ocupa. Consoante o signo onde um dos elementos se encontra, somam-se os graus dos signos anteriores, ou seja, 0° para Carneiro, 30° para Touro, 60° para Gémeos, 90° Caranguejo, 120° para Leão, 150° para Virgem, 180° para Balança, 210° para Escorpião, 240° para Sagitário, 270° para Capricórnio, 300° para Aquário e 330° para Peixes. Por exemplo, para calcular a Parte da Fortuna de uma natividade nocturna deve-se proceder da seguinte forma:

Elementos

ASCENDENTE: 06° 35' de Sagitário = 246° 35' = 246,35
SOL: 10° 27' de Capricórnio = 280° 27' = 280,27
LUA: 23° 36' de Touro = 53° 36' = 53,36

Fórmula da Parte da Fortuna Nocturna

ASCENDENTE + SOL - LUA
246,35 + 280,27 - 53,36

Resultado 

473,26 - 360 = 113,26 = 23° 26' de Caranguejo 

    Alcançado o resultado da operação, deve-se ter em atenção três aspectos:
  • Se o valor final for superior a 360, que é o caso, então deve-se subtrair 360;
  • Se o valor final for negativo, pois a soma de A e B é inferior ao valor de C, então deve-se somar 360;
  • E, por fim, como os números decimais dizem respeito aos minutos dos graus, devemos assumir a unidade, ou seja, um grau, como 60 minutos e não como 100 centésimas. Assim, se no resultado final o valor decimal for superior a 60, então deve-se somar uma unidade e deixar o remanescente decimal. Por exemplo, se o resultado da Parte da Fortuna  fosse 99,61, então o valor a reduzir seria 100,01.
  Com o valor final já encontrado, resta apenas transformá-lo em graus e minutos e colocá-lo, já como Parte, num dos doze signos.

Paulo de Alexandria
(Século IV da E.C.)
Introdução
(Eisagôgiká)

Capítulo 23
Acerca das Sete Partes segundo o Panarétos

  Logo, esta confirma-se ser a origem das Partes, pois, de acordo com a sua natureza, a Lua torna-se (kathéstêken) a Fortuna, o Sol, o Espírito, Afrodite, o Desejo, a estrela de Hermes, a Necessidade, a de Ares, a Coragem, a de Zeus, a Vitória e a de Cronos, a Retribuição. O Hôróskopos age como seu juiz e mediador, tornando-se o sustentáculo (básis) de todo o universo.
  E a Fortuna (Týchê) significa tudo o que se relaciona com o corpo (sômatos) e as acções ao longo da vida. Tornou-se sinónimo de aquisições, reputação e privilégios.
  Sucede pois que o Espírito (Daímôn) é o regente da alma (psychê), do carácter (trópos) e da inteligência (phronésis), bem como de todas as faculdades e, em certos momentos, relaciona-se com a reflexão acerca do que cada um faz.
  O Desejo (Éros) significa os apetites e as aspirações que resultam de uma escolha e que são responsáveis pelas amizades (phília) e seus proveitos.
  A Necessidade (Anánkê) significa constrangimentos, submissão, conflitos e guerras (pólemos) e cria inimigos, ódios, condenações e todas as outras restrições que recaem sobre os homens desde o seu nascimento.
  A Coragem (Tólma) constitui a causa (paraitía kathéstêken) da ousadia, das conspirações e da força, bem como de toda a perfídia.
  A Vitória  (Níkê) constitui a causa da confiança (pístis), de um boa esperança, de contestação e de todas as formas de parcerias, mas é também responsável pelos empreendimentos (epibolê) e oportunidades (epitukhía).
  A Retribuição (Némesis) constitui a causa dos destinos subterrâneos (daimónôn kthoníôn), de todas as coisas ocultas e também denunciadas, da debilidade, do exílio, da destruição, da tristeza e do que é próprio da morte (poíotêtos thanátou).

Tradução do Grego RMdF

Comentário

  As Sete Partes Herméticas, atribuídas a cada um dos sete astros e enunciadas por Paulo de Alexandria, são um importante contributo para a interpretação astrológica, bem como um marco na história da astrologia. Estas Partes permitem também que se termine com a nomenclatura errónea de Partes Arábicas, pois a sua origem, apesar de incerta, sendo provavelmente egípcia ou babilónica, serve as bases da astrologia helenista, logo anterior à astrologia árabe. Ptolomeu revelou algum cepticismo quanto a sua utilização, incluindo apenas no seu sistema a Parte da Fortuna, todavia elas criam analogias que servem um modelo de sentido assente numa linguagem de relações e afinidades. São as ligações que entre elas se estabelecem que aprofundam o seu valor e significado, uma vez que é o binómio Sol/Lua, ou seja, Parte do Espírito e Parte da Fortuna, que possibilita o cálculo das restantes cinco Partes. Outro aspecto que é também de referir é a predominância do Ascendente como base de cálculo. O Ascendente como ponto de origem da natividade e delineador do tempo representa a dinâmica da vida, daí que seja um denominador comum em todas as fórmulas de cálculo.

  Os gregos designavam as Partes como Klêroi, plural de Klêros e que tem o sentido de parte, lote, quinhão, parcela ou porção. Ora esta ideia de parte é idêntica à da palavra Moirai, que indica inclusive os graus de cada zôdion. Porém, as Moiras são também as três deusas do destino: Cloto, Láquesis e Átropo. Das Fiadeiras, é Láquesis que atribui a cada um o quinhão do seu destino. Desta forma, existe uma estreita relação entre a ideia de parte e a de destino. As Moiras, consoantes os mitos, são filhas ora da Noite, ora de Témis ou ainda, segundo Platão, de Anánkê. As várias hipóteses de progenitora servem sobretudo para complementar  a profundidade do conceito de parte do destino, pois da primeira herdou-se a noção de origem, de valor primordial, da segunda, a de justa medida e, da terceira, a de necessidade, de força incontornável. Logo, este preâmbulo etimológico reforça a importância das partes na análise astrológica, uma vez que destaca o seu valor, por um lado, de quinhão do destino e, por outro, de carácter relacional, dado que uma parte é uma estrutura com a tendência natural para criar interacções, contrária ao todo que só se relaciona consigo mesmo. Essa predisposição é visível no modo como é calculada. Uma Parte, em astrologia, não é um elemento em si mesmo, é sim o produto de uma relação, de uma soma e de uma subtracção, de um positivo e de um negativo. Uma Parte é uma síntese de sentido e uma imagem da realidade.
   
  Paulo de Alexandria escreveu na segunda metade do século IV da Era Comum e, embora não se saiba quase nada acerca da sua vida, sabemos quando estaria a ser escrita a sua obra, Eisagôgiká, também designada Elementa Apostelesmatica e traduzida como Introdução ou Elementos Introdutórios. No Capítulo 20, quando explicava o regente do próprio dia em que escrevia, refere o dia 14 de Fevereiro de 378 da Era Comum (20° de Mecheir, 94 anos desde Diocleciano). Apesar de Paulo de Alexandria apresentar complexas questões textuais, a sua obra é de extrema relevância em termos astrológicos e didácticos, pois a forma como os seus argumentos são enunciados é indiscutivelmente pedagógica. O texto não tem uma riqueza literária semelhante à  de Ptolomeu, todavia a sua capacidade de síntese e de explanação sistemática visava quase de certeza o ensino da astrologia. Este aspecto é deveras evidente quando define e distingue as estruturas conceptuais e teóricas por detrás da Parte da Fortuna e da Parte do Espírito.

  A origem e o conhecimento das Partes advêm, segundo Paulo de Alexandria, da obra, Panarétos, Todo Virtuoso, atribuída a Hermes que, mais que um autor determinado, tornou-se símbolo de um tradição literária e sapiencial, usado em amiúde como referência de validação. Essa obra, hoje perdida, terá sido escrita entre o final do século I e o século II Antes da Era Comum. Na esteira desses textos fundadores da astrologia antiga, estão também as obras atribuídas a Nechepso e Petosíris. Vétio Valente identifica Nechepso como sendo um faraó ou rei e Maneton refere-o como tendo sido um faraó da XXVI Dinastia, provavelmente Necho II que governou de 610 a 595 Antes da Era Comum, o que coincidiria com a data dos fragmentos das suas obras. Petosíris é , por norma, descrito como sendo um sacerdote, quiçá o vizir do faraó, e a quem são atribuídos um tratado denominado Hória, Definições, e uma carta, dirigida a Nechepso. Estes dois míticos autores são aqui referidos pelo facto de serem considerados, sobretudo por Valente, os criadores da Parte da Fortuna. Porém, em termos cronológicos, Hermes teria a precedência criativa, mas essa não é questão mais relevante, pois o valor reside sim na profundidade filosófica das Partes Herméticas.

(...)
Fim do Excerto



Bibliografia

Hermes Trimegisto:
Corpus Hermeticum, 4 Tomes, Texte établi par Arthur Darby Nock et Traduit par André-Jean Festugière. Paris, Les Belles Lettres, 1960-72.
Schmidt, Robert and Robert Hand (Ed.), The Astrological Record of the Early Sages in Greek. Project Hindsight, Greek Track, Vol. X. Berkeley Springs, The Golden Hind Press, 1995, 6-16.

Maneton:
Manetho, Ed. William Gillian Waddell. The Loeb Classical Library n°350. London and Cambridge, William Heineman and Harvard University Press, 1940.

Nechepso e Petosíris:
Riess, E., "Nechepsonis et Petosiridis fragmenta magica" in Philologus, Supplementa 6, Parte 1, Göttingen, 1892, 325-394.
Schmidt, Robert and Robert Hand (Ed.), The Astrological Record of the Early Sages in Greek. Project Hindsight, Greek Track, Vol. X. Berkeley Springs, The Golden Hind Press, 1995, 18-22.

Paulo de Alexandria:
Pauli Alexandrini Elementa Apotelesmatica, Ed. E. Boer, Leipzig, B. G. Teubner, 1958, pp. 49-50
Introductory Matters, Ed. Robert Schimdt and Robert Hand. Project Hindsight, Greek Track, Vol. I. Berkeley Springs, The Golden Hind Press, 1995.
Greenbaum, Dorian Gieseler (Ed.), Late Classical Astrology: Paulus Alexandrinus and Olympiodorus with the Scholia from Later Commentators. Reston (VA), ARHAT, 2000.

Ptolomeu:
Claudii Ptolemaei opera quae exstant omnia, Vol. 3, 1, Apotelesmatika, Ed. Wolfgang Hübner. Estugarda e Leipzig, B. G. Teubner, 1998.
Tetrabiblos, Ed. Frank Eggleston Robbins. Cambridge (MA) e Londres, Harvard University Press e William Heinemann Ltd., 1964.

Trasilo de Mendes:
Cumont, F. (Ed.), Catalogus Codicum Astrologorum Graecorum, Vol. 8, Codicum Parisinorum, Parte III, Bruxelas, 1912, pp. 99-101.
Schmidt, Robert and Robert Hand (Ed.), The Astrological Record of the Early Sages in Greek. Project Hindsight, Greek Track, Vol. X. Berkeley Springs, The Golden Hind Press, 1995, 57-60.

Vétio Valente:
Vettii Valentis Antiocheni Anthologiarium Libri Novem, Ed. David Pingree, Leipzig, Teubner, 1986.

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